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“Aquele misterioso salto da mente para o corpo”. Foi assim que, por mais de uma vez, Freud exprimiu sua perplexidade ante o problema do relacionamento entre os fatos da vida psíquica e os da vida orgânica. Com tais palavras, ele fazia referência aos sintomas físicos da histeria, doença de causa essencialmente psíquica, que dá lugar, entretanto, a uma grande variedade de manifestações corporais.
Com o correr do tempo, a importância da compreensão desse relacionamento ultrapassou os limites da histeria e estendeu-se, de modo geral, a todos os campos da investigação patológica, erigindo-se mesmo uma nova concepção da doença e do doente que, hoje em dia, constitui o campo da PSICOSSOMÁTICA.
(Durval Marcondes, 1966).
A Psicanálise como sabemos, se originou do estudo de sintomas que se expressam no corpo, como é o caso da histeria, afirmando a unidade fundamental existente entre “psique” e “soma”, mas parece que a tradição cartesiana e dicotômica continua se impondo, senão no discurso, pelo menos no que diz respeito à prática de médicos e psicólogos, pois os primeiros, em sua maioria, continuam tratando do corpo, pouco levando em consideração a individualidade do doente, e os segundos dificilmente se ocupam de sintomas orgânicos. Sabemos que o desenvolvimento da Medicina ocorreu em bases eminentemente organicistas, dirigidos em essência à preservação e recuperação da saúde física e a evolução da Psicologia verificou-se sem a preocupação simultânea com os problemas orgânicos, voltados primordialmente à manutenção e recuperação da saúde mental. Assim, ao invés de inter - relacionado e convergente, o processo da saúde estabeleceu-se de forma inadequada e paralelo, até que o advento mais preciso da conceituação Psicossomática demonstrasse a necessidade de integrá-la em área de conhecimento comum.
Acredito que um dos razoáveis objetivos para a saúde é a procura desta integração, onde mente e corpo constituem uma unidade,porém sem igualdade. Thanatos e Eros são exemplos de uma unidade sem igualdade que delineia o caminho de cada experiência Biológica Única chamada vida.
Foi somente nos últimos vinte anos que médicos, biólogos e psicólogos ocidentais, começaram a compreender o inter-relacionamento entre os estados emocionais e mentais e o bem estar físico. O campo da imunologia é quase uma espécie de “segundo cérebro”, uma rede celular especializada que confere ao corpo uma identidade flexível, além disso, essa identidade somática mantém vínculos extremamente específicos com as redes neurais subjacentes à vida cognitiva, formando a base do novo campo da Psiconeuroimunologia.
Penso como o professor Miller de Paiva (1994), que o profissional que acredita na Psicossomática deve ter, além de conhecimento sobre o orgânico, sobre estruturas, sobre o funcional, necessita ainda, conhecer a ciência do mundo inconsciente e sua dinâmica, para assim compreender o seu paciente e ambos terem oportunidade de novos conhecimentos. Aí, então, ele poderá seguir o poeta Kazantzakis:
“Em mim ressoa uma ordem :
- Cava! Que vês?
- Homens e pássaros, pedras e flores
- Cava mais! Que vês?
- Idéias e sonhos, clarões, fantasmas...
- Cava mais ainda! Que vês?
- Nada. Uma noite densa, muda, surda como a morte
Deve ser a morte.
- Cava mais um pouco!
- Ah! Não consigo penetrar mais a muralha negra!
Ouço gritos e prantos. Ouço frêmitos de asas que vem da outra margem!
- Não chores, não chores, não vêm da outra margem!
Os gritos, os prantos e as asas... vêm do teu coração! “.
De forma geral, é curioso observar a reação de perplexidade das pessoas diante da possibilidade de admitirem que a causa da sua doença orgânica esteja baseada em fatores psíquicos. Na prática, no entanto, podemos observar de forma clara a influência do psiquismo originando um sintoma somático ou vice-versa, isto é, podemos perceber claramente a relação de interdependência entre mente-corpo. Pessoas que adoecem quando da perda de um ente querido, ou quando estão muito felizes, ou preocupadas ou ansiosas.
A compreensão do fato de que a mente e o corpo são inter - relacionados remonta há pelo menos 4.500 anos. Huang Ti, chamado de o Imperador Amarelo da China, autor de um clássico de medicina interna, observou que a frustração pode fazer com que as pessoas fiquem fisicamente doentes. “Seus desejos e idéias deverão ser investigados e acompanhados” - o recomendava - “e então... aqueles que tenham atingido a satisfação espiritual serão prósperos e vicejantes, enquanto os demais, os que não o conseguirem, perecerão”. (Lewis,H.R. & Lewwis,M.E.1974).
O Conceito de Psicossomática e sua Evolução na História
“A loucura é a alma se expressando em carne viva”
Carlos A.Bynton
Para o primitivo, a vida tinha que ser vivida de acordo com a ordem natural do espírito, portanto era uma causa natural que seu procedimento terapêutico tivesse o mesmo enfoque. (Mauceri, 1986).
A qualidade de observar a natureza como transcendente é encontrada na maioria das religiões arcaicas e levou ao desenvolvimento de uma medicina em que o respeito pelo espiritual e pela busca de um significado maior com relação à doença e saúde era básico.
Todas as civilizações que se sucederam à sociedade primitiva deram continuidade a essa linha de pensamento.
Os médicos gregos foram os primeiros a separar a categoria espiritual da material e a desenvolver uma abordagem científica tal como usamos hoje: observação, análise, dedução e síntese.
A harmonia interna podia ser obtida por música, dieta, compreensão dos sonhos e meditação, que levavam à estabilidade e união da psique e soma.
No modelo romântico, primeira metade do século XIX, o estado de saúde era atribuído a diferentes fatores: biológicos, morais, psicológicos e espirituais. A fonte principal do conhecimento terapêutico era a observação clínica dos pacientes. Este modo de olhar a doença e a saúde contestava o racionalismo predominante, principalmente em função da descoberta da irracionalidade da mente (inconsciente).
Foi neste período que a psiquiatria se incorporou definitivamente à medicina e, como veremos adiante, surgiu a denominação “psicossomática”.
Posteriormente, doença passou a ser definida como um desvio do normal e não mais holisticamente, como um desequilíbrio não – natural. A observação clínica foi substituída gradualmente pela pesquisa experimental, a qual passou a ser considerada a principal fonte de conhecimento científico. No final do século XX, portanto, buscava-se a generalização, visando padronizar critérios de diagnóstico e formas de tratamento. Inicia-se um processo no qual os sistemas corporais são fragmentados em partes menores. Ao mesmo tempo, aspectos não materiais deixam de ter importância, inaugurando-se uma forma exclusivamente materialista de tratamento e cura.
Conceito de Psicossomática
A)O nome Psicossomática foi usado pela primeira vez em 1808 por um psiquiatra alemão, Heinroth, ao tentar explicar a origem da insônia. Posteriormente, ele introduz o termo “somatopsíquico”, para explicar a influência das doenças orgânicas sobre o psiquismo.
B)Felix Deutsch (1922) – foi o primeiro autor a introduzir o termo “Medicina Psicossomática”.
C)Helen Dunbar (1933) – forneceu a base principal para a formação dessa área, com observações sistemáticas e aplicação de uma metodologia científica.
Reconhece-se hoje que foi Felix Deutsch, em 1922, o primeiro autor a introduzir o termo “Medicina psicossomática”, embora tenha sido Helen Dunbar, com seu livro Emotions and Biology Changes. A Survey of Literature on Psychosomatic Interrelationships: 1910 – 1933 Mudanças Emocionais e Biológicas. Uma pesquisa da Literatura sobre inter-relações Psicossomáticas”, quem tivesse fornecido a base principal para a formação dessa área, com observações sistemáticas e aplicação de uma metodologia científica. Embora a própria Dumbar não considerasse o termo adequado por não expressar que mente e corpo fossem aspectos de uma unidade fundamental, este foi consagrado por falta de outro melhor, caindo no domínio público e científico.
No editorial do primeiro número de Psychosomatic Medicine (1939) temos a seguinte definição, ainda não contestada, que tem norteado os trabalhos desse grupo:
“Seu objetivo é estudar a inter – relação dos aspectos psicológicos e fisiológicos do funcionamento normal e anormal do corpo e integrar a terapia somática na psicoterapia“ (Dumbar, 1939).
Considera-se que o aparecimento do livro de Dumbar, seguido da fundação da sociedade e da revista, tenha marcado a emergência do campo psicossomático.
D)Os estudos de psicofisiologia desenvolvidos por I. Pavlov e W. Cannon tornaram-se, nos anos 30, um componente integral da psicossomática.
E)Outra importante contribuição à área foi feita por H. Selye, com sua descoberta da síndrome geral de adaptação, hoje chamada mais comumente de síndrome do estresse.
F)S. Freud estudou a influência das emoções sobre o corpo, preocupando-se principalmente com o papel da etiologia na formação dos sintomas. Seus conceitos de repressão e conversão forneceram os instrumentos que poderiam ser aplicados à hipótese das relações psicossomáticas. Entretanto, ele confinou essas hipóteses à histeria e não as estendeu a doenças orgânicas.
G)George Goddeck (1866 – 1934): considerado o pai da Psicossomática, estendeu as hipóteses psicanalíticas para todas as doenças orgânicas.
Groddeck afirma:
“O sucesso do tratamento psicanalítico - cujo direito à aplicação também em casos de moléstias físicas acabei reconhecendo contra a minha vontade - reforça o condicionamento das formas de vida doentias e saudáveis, do corpo bem como da alma, às forças do inconsciente. Não cheguei à psicanálise tratando de doenças nervosas, como a maior parte dos discípulos de Freud, mas a partir de minha atividade terapêutica, desenvolvida junto a pacientes com doenças orgânicas crônicas, fui obrigado a recorrer ao tratamento psicológico e posteriormente ao psicanalítico”. Muitas das idéias de Groddeck vão estar presentes no sistema desenvolvido pela psicanalista Melanie Klein.
H)Franz Alexander (1952) (Escola de Chicago)
Embora tenha descrito sete doenças, mais tarde, chamadas de psicossomáticas, Alexander considerava que “ toda doença é psicossomática, uma vez que fatores emocionais, influencia, todos os processos do corpo, através das vias nervosas e humorais”. Para ele “cada doença corresponderia a um quadro emocional ou a um tipo de personalidade”. Trabalhou, assim, com a hipótese de especificidade orgânica, respondente a cada força psicológica motivadora.
Dentro de uma perspectiva psicanalítica, destaca-se também a Escola Psicossomática de Paris, representada principalmente por Marty, Uzan e David. Para eles, o paciente psicossomático era aquele caracterizado pela pobreza do mundo simbólico, aprisionado no concreto e com pouca ligação com seu inconsciente. Sendo assim, a doença não teria qualquer significação simbólica, pois seria conseqüência da própria incapacidade de simbolização.
Na mesma linha de raciocínio, Sífneos e Nehemiah desenvolveriam, posteriormente, o conceito de Alexitimia. Esta palavra vem do grego “alexo” que significa afastar e expulsar e “tymos” que significa alma ou desejo. Poderíamos, portanto traduzi-la como: afastamento da alma ou do desejo.
Desejo acrescentar a este conceito muitas vezes discutível, enfatizar que o que normalmente encontro na clínica, são Graus de Alexítimia, e isto preponderantemente nas situações de crise. É evidente que um paciente que consegue verbalizar sonhos e sentimentos, não se caracteriza como Alexítimico; no entanto se ele estiver somatizando, entendo que ele apresenta Alexítimia, (um grau baixo de Alextímia) na medida em que os afetos que realmente estão na origem do sintoma somático, não são verbalizados, mostrando-se como sintoma produtivo (somatização). Existe dificuldade na capacidade de simbolização subjetiva que se concretiza através do processo de somatização concreta (símbolo inscrito no corpo).
I)Mello F. (1992): Psicossomática Psicanalítica, Behaviorista ou Multidisciplinar.
Para este autor, a psicossomática evoluiu em três fases: A primeira, denominada de fase inicial ou Psicanalítica. Sob a influência das teorias Psicanalíticas, teve seu interesse voltado para os estudos da origem inconsciente da doença. A segunda fase, intermediária, influenciada pelo modelo Behaviorista, valorizou as pesquisas tanto em homens como em animais, deixando assim grande legado aos estudos do stress. A terceira fase, denominada de multidisciplinar, valorizou o social, a interação e interconexão entre os profissionais das várias áreas da saúde.
J)Psiconeuroimunologia: (Paradigma da Integração). O modelo atual de Psicossomática retoma antigos conceitos, práticas, métodos e técnicas, procurando integrá-los no mundo moderno.
A Psiconeuroimunologia propõe-se a religação da mente com o corpo, na medida em que estuda a relação existente entre eles, sob a perspectiva do “Paradigma da Integração” (Vasconcellos (1998)
“Psicossomática é uma atitude ou postura de abordagem integrativa do ser humano, independente da posição profissional de quem dela se utiliza, com o objetivo de enriquecer a sua prática”. ( Laurenti, 2000 )
George Groddeck, o verdadeiro precursor da psicossomática enfocada na psicanálise, não consegue o reconhecimento de seus pares, tanto médicos quanto psicanalistas, e sua obra estará praticamente desconhecida por décadas.
“Quanto mais profundo for o conflito íntimo do ser humano, mais graves serão as doenças, pois elas representam simbolicamente o conflito. E, inversamente, quanto mais graves as doenças, mais os desejos e a resistência a esses desejos serão violentos. Isso se aplica a todas as doenças ” (Groddeck, 1917).
Em relação à interdependência Mente-Corpo, Groddeck afirma:
“O sucesso do tratamento psicanalítico - cujo direito à aplicação também em casos de moléstias físicas acabei reconhecendo contra a minha vontade -reforça o condicionamento das formas de vida doentias e saudáveis, do corpo bem como da alma, às forças do inconsciente. Não cheguei à psicanálise tratando de doenças nervosas, como a maior parte dos discípulos de Freud, mas a partir de minha atividade terapêutica, desenvolvida junto a pacientes com doenças orgânicas crônicas, fui obrigado a recorrer ao tratamento psicológico e posteriormente ao psicanalítico”.
Em sua auto-análise, Groddek busca as origens de seus sintomas e é conduzido até seus primeiros anos de vida. Afirma que eles esclarecem por que o inconsciente escolhe certas partes do corpo como pontos de ataque para sua atividade doentia ou, em outras palavras, como pode surgir uma disposição local.
Muitas das idéias de Groddeck estão contidas no sistema desenvolvido por Melanie Klein. Para esta autora o primeiro ano de vida é absolutamente fundamental para a formação e a estruturação da Personalidade. Ele se constitui no ponto central, organizador da estrutura da personalidade:
•Esta estrutura se caracteriza por um eu frágil, com deficiência no seu processo de simbolização.
•É por meio do simbolismo que a fantasia inconsciente se expressa, seja em sintomas (físicos e mentais), em sonhos ou em relacionamentos humanos comuns.
•O sintoma físico (somatização) seria a simbolização de uma Fantasia Inconsciente.
Para Klein, a interação entre ansiedades e fatores físicos é um aspecto dos complexos processos de desenvolvimento precoce envolvendo: Todas as emoções e fantasias do bebê durante o 1º ano de vida e isto se aplica à vida toda.
A partir dos trabalhos de Alexander, na década de 30, a questão da dissociação mente-corpo polarizou o interesse dos psicanalistas e conduziu à investigação da relação precoce entre a mãe e o bebê. Sperling (1978) considera a má resolução da simbiose mãe-bebê a base dos transtornos psicossomáticos; Winnicott (1982) propõem que a essência desses fenômenos devia-se à própria dissociação, conseqüências de clivagens egóicas ocorridas no início do desenvolvimento; Marty (1994) afirma que o transtorno psicossomático não configura uma entidade nosológica, sendo a manifestação de um aparelho mental frágil e instável, devido a um mal funcionamento do sistema pré-consciente; Sami-Ali (1986) diz ser a somatização devida a uma forma especial de repressão; Joyce Macdougall (1991) mostra que o transtorno psicossomático surge na primeira infância como uma reação ao desamparo psíquico e como uma tentativa de sobrevivência que protege o indivíduo do acúmulo de tensão psíquica; Dejours (1989) acredita que as agressões familiares dirigidas ao bebê, e a incapacidade materna de separar-se deste, sobrecarregando-o sensorialmente, tornam-no incapaz de elaborar psiquicamente o montante de violência arcaica. O sintoma psicossomático sobreviria como um intento criativo para curar-se.
Percebe-se os seguintes pontos coincidentes entre as diversas abordagens psicanalíticas dos trabalhos de : Sperling, Winnicott, Marty, Sami-ali, MacDougall e Dejours, e Melanie Klein.
1. Há um acordo quase absoluto com respeito à formação de uma estrutura psicossomática no curso do desenvolvimento precoce, devido a uma relação mãe-filho distorcida. Esta estrutura se caracteriza por um eu frágil, com deficiência no seu processo de simbolização.
2. Outro acordo se refere ao parentesco da psicossomatose com a psicose. Sublinha-se que existe em ambas a mesma confusão inconsciente que implica contradição, porém sua solução é diferente. Na psicose se produz um pensamento delirante; no transtorno psicossomático é o corpo que delira. Considera-se que este delírio corporal manifestado na somatização é uma defesa contra temores psicóticos.
Podemos considerar a Psicossomática, como um Instrumento Terapêutico da área da saúde, devendo, portanto, fazer parte das habilidades e competências do Psicólogo, tanto na sua prática clínica quanto na sua atuação nas Instituições.
A postura psicossomática exige de quem trabalha com ela, uma disposição de aprender coisas novas e, até mesmo, coragem de modificar métodos de trabalho, se necessário, a uma maior compreensão deste misterioso e fascinante envolvimento mente/corpo “. (Laurenti, 2000)
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