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    Dependência química sob uma perspectiva psicanalítica

    Claudia Sampaio

    Psicanalista e Pedagoga


    O uso de drogas é tão antigo quanto à existência do homem na terra. De acordo com Medeiros e Tófoli (2018:1):


    “O consumo de substâncias psicoativas é um fenômeno histórico-cultural com implicações médicas, políticas, religiosas e econômicas (Minayo e Deslandes, 1998). Do ponto de vista histórico, sabe-se que a relação da humanidade com os psicoativos, para os quais utilizaremos aqui também a denominação genérica drogas, é um fenômeno antigo e persistente: com exceção de populações habitantes de zonas árticas, completamente desprovidas de vegetação, não há um só grupo humano que não tenha se relacionado com substâncias psicoativas (Escohotado, 1998). As motivações existentes para o estabelecimento de uma relação tão prolongada foram diversas: a busca do prazer, o alívio de preocupações e tensões, o controle do humor e a expansão da consciência, com alteração de seus estados ordinários (Filev, 2015).”


    Segundo Freud, o aparelho psíquico humano visa o alívio da tensão e por isso tem como objetivo buscar o prazer e evitar o desprazer. Com base em Freud, Cunha (1978) afirma que:


    “Na teoria psicanalítica, aceitamos que o curso dos processos mentais é automaticamente regulado pelo “principio do prazer”; por assim dizer, cremos que qualquer processo se origina num estado desagradável de tensão, e em consequência, determina para si um tal caminho, que sua versão fundamental coincida com um relaxamento dessa tensão, i. é, com uma evitação da “dor” ou com a produção do prazer.” (1978, p.155)


    Apesar de destrutivo, o uso de substâncias como álcool e drogas no alívio da dor humana aparentemente tem se mostrado eficiente de alguma forma, pois está presente desde os primórdios.


    Freud afirma em O mal estar da civilização (1930):

    “O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício, que tanto indivíduos quanto povos lhe concederam um lugar permanente na economia de sua libido. Devemos a tais veículos não só a produção imediata de prazer, mas também um grau altamente desejado de independência do mundo externo, pois sabe-se que, com o auxílio desse “amortecedor de preocupações”, é possível, em qualquer ocasião, afastar-se da pressão da realidade e encontrar um refúgio num mundo próprio, com melhores condições de sensibilidade. Sabe-se igualmente que é exatamente essa propriedade dos intoxicantes que determina o seu perigo e a sua capacidade de causar danos.”(1974, p. 97).


    O homem está sempre em busca de aplacar seus medos, acobertar suas fragilidades e impotência e muitas vezes afastar-se da realidade para não precisar lidar com todas essas coisas. As “propriedades intoxicantes” ajudam o homem a enganar a si próprio e viver num mundo ideal onde a tensão psíquica é igual a zero. Mas um mundo fabricado, uma fantasia.


    Até mesmo alguns jovens, que muitas vezes não tem tantos motivos reais para tensão e preocupação, ainda assim buscam mais prazer e relaxamento através do uso de drogas.

    A multimídia faz com que admiremos tantas celebridades usuárias de álcool e drogas, fazendo do vício algo trivial, que pode ser visto nas notícias diariamente. Isso pode, inclusive, nos levar a associar inconscientemente drogas ao sucesso, ao dinheiro, a fama e a arte.


    O mundo, por sua vez, nos diz que é justamente disso que precisamos: dinheiro, destaque, likes, carros novos, roupas de marca, etc.


    Além disso, o que seria do mercado financeiro sem as drogas? O tráfico de drogas entra no cálculo do PIB europeu!


    Em matéria intitulada “PIB 2019: Por que o tráfico de drogas entra no cálculo do indicador europeu e como essa conta poderia inflar o indicador brasileiro”, publicada no BBC News em maio de 2019, afirma-se o seguinte:


    “Muitos países, entre eles todos os 27 membros da União Europeia, passaram a incluir atividades ilícitas como tráfico de drogas e contrabando no cálculo do PIB o que, na prática, ajuda a economia a parecer maior.” (Odila e Alegretti, 2019).


    De acordo com o site de notícias Metrópoles, em matéria intitulada “PCC movimenta R$ 200 milhões e negocia 40 toneladas de cocaína”, esse é o valor que o PCC movimenta por ano em cocaína e as drogas em geral movimentam R$ 17 bilhões por ano no Brasil.

    Essa conjunção de fatores intrínsecos e extrínsecos torna o homem muito suscetível à dependência química.


    Por esse motivo é imperativo que todo ser humano busque sempre fazer algum tipo de trabalho interno através da psicanálise, terapias, meditação, para que possa se autoconhecer, ter uma melhor qualidade de vida, desenvolver mais mecanismos para lidar com as adversidades, encontrar paz interior e ser feliz no mundo real, sem abuso de quaisquer substâncias.


    Referências bibliográficas:

    CUNHA, Jurema Alcides. Dicionário de termos de psicanálise de Freud. São Paulo: Globo. 1978.

    FREUD, Sigmund. O mal estar na civilização (1930). In: FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

    MEDEIROS, Débora. TÓFOLI, Luís Fernando. “Mitos e evidências na construção das políticas sobre drogas”. Boletim de Análise Político-institucional. No. 18. Dezembro de 2018. Disponível em: http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/8880/1/bapi_18_cap_6.pdf Acesso em 18/02/2020.

    METROPÓLES. “PCC movimenta R$ 200 milhões e negocia 40 toneladas de cocaína”. Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil/pcc-movimenta-r-200-milhoes-e-negocia-40-toneladas-de-cocaina/amp Acesso em 19/02/2020.

    ODILA, Fernanda. ALEGRETTI, Laís. “PIB 2019: Por que o tráfico de drogas entra no cálculo do indicador europeu e como essa conta poderia inflar o indicador brasileiro”. BBC News Brasil. Maio/2019. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-48340243. Acesso em 19/02/2020.


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