O desejo de mudar o outro

Claudia Sampaio

Psicanalista e Pedagoga


O desejo de manter uma relação amorosa estável que dure a vida toda pode ser interrompido por muitos motivos tais como ciúmes, monotonia advinda da rotina, incompatibilidades sexuais, dificuldades financeiras, obrigações com a administração da casa e os cuidados com os filhos, entre outras razões.

Seja qual for a questão existe um fator comum que parece estar presente em todos os desentendimentos: o desejo de mudar o outro. Sempre que as dificuldades chegam a um relacionamento amoroso a primeira solução que vem a mente é mudar o outro.

Há uma série de vantagens na esperança de mudança do outro. Dentre elas, pode estar a ideia de que se o outro for o gerador de crises, a outra parte estaria isenta da sua parcela de responsabilidade sobre a situação.

Contudo, não existe a possibilidade de mudar o parceiro de forma a atender as expectativas e desejos depositados nele. Além disso, é próprio da condição humana certa resistência a mudanças, isso porque segundo Freud, não há realmente segurança senão no previsível, mesmo que isto signifique infelicidade e sofrimento (1996 [1926]). Assim, muitos casais podem manter a mesma dinâmica na relação infinitamente, por medo de não saber como será caso mudanças aconteçam, mesmo que tal dinâmica seja dolorosa e cheia de desprazeres. Ou seja, podemos nos acostumar a suportar a dor pelo fato da mesma nos ser conhecida, familiar e previsível.

Tal resistência à mudança pode desencadear um processo de repetição de vivências fadadas ao fracasso no relacionamento. Esse processo pode parecer ilógico, porém do ponto de vista inconsciente ele é justificável.

O desejo de segurança dificulta abrir mão do conhecido e abandonar antigos hábitos. O sentimento de insegurança pode ser intolerável. Não há realmente segurança senão no previsível. Além disso, a noção de mudança pode estar associada desde a infância ao caos e ao perigo. O medo de lidar com tais sensações pode impedir o progresso e a melhora de qualidade das relações. É preciso discernimento para reconhecer que algo não funciona e coragem para mudar, pois esse processo demanda o reconhecimento da frustração e a necessidade de olhar pra si mesmo e para o outro.

Quando desejamos tão profundamente que o parceiro mude talvez estejamos com medo de fazer alguma mudança em nós mesmos e escolhemos passar essa responsabilidade para o outro.

Em um dos casos que acompanhei, a esposa vinha à análise e durante a sessão falava de todos os “defeitos” do marido. Para ela, ele trabalhava demais e quando estava em casa não agia da forma que ela esperava. Não a levava para os eventos sociais que desejava, não brincava o suficiente como o filho, gastava tempo no computador trabalhando mesmo estando em casa, dormia cedo. O marido não conseguia acompanhar a demanda da esposa pelo fato de estar cansado. Ela por outro lado havia abandonado o emprego para ficar em casa e tomar conta da vida doméstica e do bebê, então com três anos de idade. Ora, seu marido precisava trabalhar muito mesmo porque ela tinha uma babá e duas empregadas. Além disso, a esposa exigia um alto padrão de vida. Através de sua análise individual a paciente começou a notar que algumas mudanças podiam partir dela. Caso ela colaborasse financeiramente por meio de seu próprio trabalho, ou reduzisse os custos da vida do casal, provavelmente o marido poderia trabalhar menos e teria mais disposição para os momentos em família.

É também interessante refletir sobre o porquê de estar junto de alguém que precisa de tantas mudanças. Se a pessoa vive um relacionamento infeliz e atribui isso à necessidade do outro agir de forma diferente ou ter outras características, ou seja, reprova a natureza do parceiro e praticamente deseja que ele seja outra pessoa, talvez seja necessário avaliar se essa relação realmente vale a pena.

Assim, vir à análise com a expectativa de que o outro mudará para que seu relacionamento seja salvo é um ponto de partida comum, mas que não garante a transformação do parceiro amoroso. De outro modo, é possível apostar na análise como uma ferramenta para reconhecer e lidar com a realidade, aprender sobre si mesmo e sobre o parceiro/a, desenvolver a tolerância e compreensão sem perder sua própria identidade.

Para que uma relação seja duradoura são necessárias duas pessoas inteiras. Os caminhos, interesses e atividades do casal precisam convergir em muitos momentos, mas há também a necessidade de um tempo e um espaço para que cada um exerça a sua individualidade. A crença de que a felicidade da relação depende apenas da mudança do outro é um grande equívoco e tira o foco das reais dificuldades e possíveis soluções.



Referências:

FERREIRA, Adriana. Repensando o casamento com a ajuda da psicanálise. Publicado em outubro/2016. Disponível em: https://www.webartigos.com/artigos/repensando-o-casamento-com-a-ajuda-da-psicanalise/146641 Acesso em: 03/07/2019.

FREUD, Sigmund. Inibições, sintomas e ansiedade (1926 [1925]). In: FREUD, Sigmund. Um estudo autobiográfico, Inibições, sintomas e ansiedade, Análise leiga e outros trabalhos (1925-1926). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume XX. Rio de Janeiro: Imago, 1996. Pp. 81-171.


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