Psicanálise não é psicoterapia

Cláudia Sampaio

Psicanalista e Pedagoga


A psicanálise é uma práxis diferente dos métodos terapêuticos.

Em “Dois verbetes de enciclopédia” Freud (1923[1922]/1996), definiu a psicanálise como: “1. um procedimento para a investigação de processos mentais que são quase inacessíveis por qualquer outro modo; 2. um método (baseado nessa investigação) para o tratamento de distúrbios neuróticos; e 3. uma coleção de informações psicológicas obtidas ao longo destas linhas, e que gradualmente se acumula numa nova disciplina científica.” (FREUD, 1923 [1922]/1996 p.253)

O seu fundamento teórico é diferente das psicoterapias. A psicanálise trabalha com a transferência, associação livre, interpretação de sonhos e conceitos do inconsciente.

O conceito de inconsciente é o centro da descrição freudiana da mente. A importância dos processos mentais inconscientes é uma diferença fundamental entre a psicanálise e as teorias psicológicas. Para Freud o inconsciente é um lugar psíquico, repleto de conteúdos reprimidos que se fazem presente na vida cotidiana do sujeito através de sintomas e parapraxias. Além disso, a maior parte de da vida humana seria governada por tais conteúdos inconscientes. “A elaboração de que o inconsciente é um sistema constituído por representações associadas umas às outras de acordo com as leis do deslocamento e da condensação, de que ele se constitui na verdadeira instância onde os pensamentos se produzem, e de que esses pensamentos inconscientes podem encontrar um meio de expressão simbólica na palavra, formam, em síntese, o ápice das elaborações freudianas presentes na primeira tópica. Contudo, essas formulações têm um longo e laborioso percurso histórico de formulação.” (Baratto,2009)

O analista direciona seu trabalho em busca desses processos de pensamento inconsciente, os quais se desenrolam não apenas no indivíduo isolado, mas também nos grupos e nas instituições.

De outro modo, a psicologia trabalha com o comportamento consciente e ferramentas, como por exemplo, testes psicológicos. A psicanálise não é prerrogativa da psicologia.

A formação de um psicanalista se dá em um tripé clássico: análise pessoal, supervisão e teoria específica sobre o inconsciente. Há necessidade de uma formação em instituições formadoras que requisitam nível superior, estudo teórico, estágio e análise pessoal. Ninguém pode ser analista sem ter passado por todas essas etapas, inclusive, por análise pessoal. O psicólogo pode atender sem ter passado por psicoterapia, isso não é necessário para a profissão.

A psicanálise é especializada na maior parte do psiquismo humano, que é inconsciente. É um estudo muito abrangente e complexo que não pode ser ensinado como uma simples disciplina dentro de um curso de graduação.

A psicoterapia é uma técnica no sentido de que vai haver repetição de algum método que somente o psicoterapeuta sabe e o paciente não está ciente. É uma relação em que o psicoterapeuta possui o saber total.

Já a psicanálise é uma relação entre dois sujeitos, sendo que, um detém um conhecimento teórico e um amadurecimento que o outro ainda não possui. Entretanto, mesmo estando preparado, o psicanalista nada sabe sobre o inconsciente do paciente, de modo que ambos fazem parte de um processo investigativo, que se realiza a partir da relação entre analista e paciente. É uma relação em que o psicanalista ocupa a posição de suposto saber.

A medicina, já na época de Freud, que era médico, tentou tomar para si a psicanálise. Várias áreas tentaram ao longo dos anos abarcar a psicanálise, mas isso nunca aconteceu e não é desejável que aconteça, porque a psicanálise é livre e não pode ser influenciada de qualquer forma por métodos genéricos, religiões, interesses outros ou política.

O psicanalista faz um diagnóstico através das entrevistas iniciais, que permitem construir um perfil da estrutura psíquica do sujeito. Tal estrutura é totalmente baseada na subjetividade do ser humano, que é singular. Através do processo analítico, os conteúdos inconscientes são trazidos para a consciência do paciente.

O psicanalista não oferece conselhos ao paciente, ele leva o sujeito ao conhecimento de seu psiquismo, respeitando a sua subjetividade e singularidade. O inconsciente tem como mecanismo de defesa resistir a imposições, daí a importância de a análise não partir de pressupostos, julgamentos, regras e conselhos, para então poder-se ter acesso ao desejo real do paciente, sem exigir ou impor nada.

A psicanálise ajuda o sujeito a descobrir as razões de seu sofrimento. O paciente geralmente não tem consciência do que está causando o sintoma que lhe aflige, e o processo analítico trará à tona aquilo que o paciente desconhece.

O Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo – Sinpesp sempre preocupado com a qualidade da formação e dos serviços prestados pelos profissionais da psicanálise, disponibiliza seu estatuto no site, cujo 1º artigo bem descreve o psicanalista, conforme segue:

“§ 1° - O profissional Psicanalista é aquele que, possuindo formação superior em qualquer área, estuda, pesquisa e avalia o desenvolvimento emocional e os processos mentais e sociais de indivíduos, grupos e instituições, com a finalidade de análise, tratamento, orientação e educação; diagnostica e avalia distúrbios emocionais e mentais e de adaptação social, elucidando conflitos e questões e acompanhando o(s) paciente(s) durante o processo de tratamento ou cura; investiga os fatores inconscientes do comportamento individual e grupal, tornando-os conscientes; desenvolve pesquisas experimentais, teóricas e clínicas e coordena equipes e atividades de área e afins, definição baseada na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) nº 2515-50 do Ministério do Trabalho e Emprego”.


Referências

BARATTO, Geselda. A descoberta do inconsciente e o percurso histórico de sua elaboração. Psicologia: ciência e profissão. Brasília, v. 29, n. 1, p. 74-87 2009. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932009000100007&lng=en&nrm=iso Acesso em 08/03/2021

Freud S. Dois Verbetes de Enciclopédia. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas (Vol. XVIII). Rio de Janeiro: Imago; 1976.

SINPESP. Estatuto do Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo. 2018. Disponível em: https://a75c8103-7c98-4a77-a78b-03dd6d1212b1.filesusr.com/ugd/b0664a_6881b66da248401f987bffd0d38ce029.pdf Acesso em 09/03/2020

XII ENCONTRO DO SABER PSICANALÍTICO. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RxvWJCvBFZo. Acesso em 23/02/2020.

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