Psicopatas no trabalho

Claudia Sampaio

Psicanalista e Pedagoga


Psicopata e sociopata são termos usados vulgarmente para descrever criminosos e assassinos. Na literatura científica estes termos são descritos como tipos de personalidade antissocial, sendo que cada uma das condições possui características exclusivas, bem como outras em comum.



A psicanálise se refere à estrutura perversa para descrever esses sujeitos. No desenvolvimento dessa estrutura ocorre a negação da castração. Desta forma as leis, as normas, as regras são rejeitadas pelo sujeito que passa a agir de acordo com seu instinto, sem levar em consideração certos limites.



Já de um ponto de vista psiquiátrico, para ser diagnosticado como um psicopata, o indivíduo deve apresentar os seguintes sintomas, de acordo com o DSM-5 (2014):


a. Não se adequar às normas sociais no que diz respeito a comportamentos, ou seja, infringir normas que podem resultar em detenção.

b. Tendência à falsidade, uso de mentiras e trapaças para obter vantagem em algo.

c. Impulsividade ou insucesso em planejar o futuro.

d. Excitabilidade e hostilidade, marcadas por constantes agressões físicas e lutas corporais e indiferença pela sua segurança e a dos outros.

e. Irresponsabilidade reiterada; não conseguir manter uma conduta consistente no trabalho ou cumprir com deveres financeiros.

f. Falta de remorso; agir de forma indiferente ou racionalizada em relação a ter ferido, maltratado ou roubado.


Assim, tanto na psicopatia como na sociopatia, ou seja, no transtorno de personalidade antissocial (TPA), temos como características o desprezo e a violação dos direitos de terceiros, infração de leis graves, falsidade para obtenção de ganhos próprios ou prazer (por meio de golpes ou mentiras), impulsividade, agressividade resultando em ataques físicos, desconsideração com relação à segurança dos outros e de si mesmo, falha em cumprir com obrigações e deveres, ausência de remorso e culpa e falta de empatia. Estes sujeitos não se preocupam com o mal que causam para outras pessoas. Além disso, fazem uma altíssima avaliação sobre si mesmos, sendo assim, são arrogantes e cheios de si, têm mania de grandeza e gostam de se vangloriar.


“Psychologists and psychiatrists emphasize that APD cannot be properly diagnosed in children, because it is by definition a condition that abides for many years and because the personalities of children are constantly evolving. Nevertheless, adults who develop APD typically displayed what is called conduct disorder as children, generally characterized by aggressive behavior toward people or animals, destruction of property, deceitfulness or theft, and serious infractions of criminal laws or other norms.”(Duignan, 2019)

[“Psicólogos e psiquiatras enfatizam que transtorno de personalidade antissocial (TPAS) (APD - Antisocial personality disorder) não pode ser devidamente diagnosticado em crianças porque é por definição uma condição que perdura por muitos anos e as personalidades das crianças estão em constante desenvolvimento. Mesmo assim, adultos com o transtorno de personalidade antissocial, em geral, durante a infância demonstram comportamento agressivo com pessoas e animais, destruição de bens, falsidade ou roubo e infrações sérias de leis criminais ou outras normas.”] (Duignan, 2019 tradução nossa)

De acordo com Castro (2008),


“Os Transtornos de Personalidade (TP) – incluindo o Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS) - foram introduzidos como categorias diagnósticas na terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-III), publicada nos anos 80, sendo, a partir desse momento, seu conceito ampliado e refinado (Pereira, Aparício, Felício, & Bassit, 2007). Entretanto, ainda hoje, os termos TPAS, psicopatia, sociopatia e transtorno de caráter se confundem, ora sendo utilizados como sinônimos, ora diferenciados no espectro dos comportamentos antissociais. Faz-se necessário esclarecer que existem diferentes graus de conduta antissocial, variando desde: 1) comportamentos antissociais menos prejudiciais, por serem esporádicos e influenciados pelo ambiente; 2) comportamentos antissociais mal adaptativos, demonstrados no TPAS ou em outros Transtornos de Exteriorização; e 3) condutas mais extremas observadas nas psicopatias.”

Quando falamos sobre psicopatas e sociopatas a imagem de um monstro vem a nossa mente, porém esse é um engano. Esses sujeitos são charmosos, atenciosos e circulam entre nós tranquilamente. O serial killer Ted Bundy, bem sucedido, carismático e bonito ilustra bem esse tipo. No filme “Psicopata Americano” também podemos ver um retrato bem fiel do perfil.


Assim, nem todo psicopata, que é o tipo de TPA mais extremo, é um criminoso ou assassino. Uma pesquisa de Adrian Raine, da Universidade da Pensilvânia (EUA), conduzida na década de 1990, identificou 13 psicopatas que haviam cometido crimes e 26 que tinham o perfil do transtorno, mas que não tinham sido presos. O pesquisador considerou provisoriamente que esses 26 eram psicopatas de sucesso.


No experimento, cada homem deveria ser gravado em vídeo falando sobre seus defeitos. Como resultado, foi observado que havia um aumento na frequência cardíaca dos chamados psicopatas de sucesso o que indicou sinais de ansiedade social. O experimento também revelou que esses sujeitos demonstraram ser capazes de controlar seus impulsos. A combinação desses dois elementos, ansiedade social e capacidade de controle de impulsos, os mantinham longe de problemas com a justiça. Isso quer dizer que conseguiam em certo grau controlar seus atos.


A maior parte dos trabalhos científicos sobre o assunto no Brasil estima que a prevalência do transtorno de personalidade antissocial na população geral seja de 3% para homens e de 1% para mulheres. (SMAD, Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog, 2013).


Então como podemos saber onde estão esses psicopatas de sucesso?


Estudos mostram que muitos sujeitos com traços psicopatas podem ser encontrados na política. Talvez porque o sistema em que vivemos estimule a ideia de um líder competitivo e bruto, em oposição a um sensível e empático.


A ausência de medo e empatia desses líderes pode ser confundida com coragem e liderança. Suas ações podem ser mais bem compreendidas como manipulação a favor de interesses próprios, dominação e poder. O descaso absoluto com relação ao mal infligido sobre a população permite que esses líderes cometam atrocidades sem limites. Estes sujeitos estão dispostos a qualquer coisa para conquistar os benefícios que desejam, não havendo para eles dilema moral.


Obviamente os psicopatas estão presentes em outros tipos de profissão em menor ou maior escala. Como por exemplo, o empresário bem sucedido que faz fortuna a custa do trabalho escravo; um empregado de Wall Street destemido, disposto a correr riscos e ganhar ou perder o dinheiro de outros; um Ceo que humilha seu time, mente, rouba, manipula números e faz qualquer coisa para manter seu status. Tais tipos desejam prazer, poder, diversão, status e podem atingir seus objetivos de formas diversas.

As profissões mais atraentes para os psicopatas são aquelas que requerem tomadas de decisões frias e oferecem muito poder. Ao passo que profissões que envolvem aspectos mais sentimentais, ponderações e não conferem poder não são nada atrativas para eles.


De acordo com artigo do site Forbes (Clay, 2013), os empregos mais atraentes para os psicopatas são: 1. CEO; 2. Advogado; 3. Mídia (TV/Radio/Internet); 4. Vendedor; 5. Cirurgião; 6. Jornalista; 7. Agente de polícia; 8. Membro de clero; 9. Chef; 10. Funcionário público.


É claro que os profissionais das áreas acima não são todos psicopatas, a lista apenas revela algumas profissões que possuem características que atraem o perfil do portador do transtorno.


Pessoas com TPA não formam laços afetivos verdadeiros, não se apegam a outras pessoas, embora sejam capazes de fingir normalidade em ocasiões sociais e profissionais.


Este é ainda um tema muito profundo e pouco estudado. Até agora a maioria dos trabalhos indica que pode haver um conjunto de fatores que possibilita a formação de TPA, podendo ser algum elemento genético, problemas no desenvolvimento cerebral das áreas ligadas à regulação das emoções e controle de impulsos, abusos e traumas de infância.


Referências bibliográficas


AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. (2014). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5ª ed. Texto revisado (DSM-5-TR). Porto Alegre: Artmed.

BLUME, Juliana. Nem todos os psicopatas são assassinos – eles podem ser profissionais de sucesso. Hypescience, Rev. Eletrônica. Fev, 2016. Disponível em: https://hypescience.com/seu-chefe-e-um-psicopata/#:~:text=Nem%20todos%20os%20psicopatas%20s%C3%A3o%20assassinos%20%E2%80%93%20eles%20podem%20ser%20profissionais%20de%20sucesso,-Por%20Juliana%20Blume&text=Nem%20todo%20psicopata%20%C3%A9%20um,em%20papel%20de%20lideran%C3%A7a%20precisa . Acesso 24/06/2020.

CLAY, Kelly. The Top 10 Jobs That Attract Psychopaths. Forbes, Ver. Eletronica. Jan, 2013. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/kellyclay/2013/01/05/the-top-10-jobs-that-attract-psychopaths/#3d5db6564d80 . Acesso 24 jun, 2020.

COSTA, Janelise. Transtorno de personalidade anti-social e transtornos por uso de substâncias: caracterização, comorbidades e desafios ao tratamento. Temas em Psicologia. Jun, 2008. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X2008000100010. Acesso em 09/07/2020.

DUIGNAN, Brian. What’s the Difference Between a Psychopath and a Sociopath? And How Do Both Differ from Narcissists? Encyclopedia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/story/whats-the-difference-between-a-psychopath-and-a-sociopath-and-how-do-both-differ-from-narcissists . Acesso em 17/07/2020.

REIS, Leonardo Naves dos; REISDORFER, Emilene; GHERARDI-DONATO, Edilaine Cristina da Silva. Perfil dos usuários com diagnóstico de transtornos de personalidade de um serviço de saúde mental. SMAD, Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog. (Ed. port.). Ribeirão Preto, v. 9, n. 2, p. 70-75, ago/2013. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-69762013000200004&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt . Acesso em 24/06/2020.

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