Relação entre abuso sexual e prostituição sob um olhar psicanalítico

Cláudia Sampaio

Psicanalista e Pedagoga



O presente artigo tem como objetivo principal compreender os processos que podem conduzir uma mulher ao trabalho na prostituição. O estudo tem seu início na investigação da vida infantil do sujeito, utilizando bases teóricas da psicanálise e a experiência clínica de casos de pacientes. Não há um material extenso na psicanálise abrangendo este assunto, daí a importância de buscarmos maior conhecimento para podermos, como psicanalistas, tratar das questões de pacientes que possam estar nessa situação, passando por estigmas e sofrimento de toda sorte.

A vivência de abusos pode levar o sujeito à prostituição, uma vez que compromete seu psiquismo tornando-o vulnerável a diversos tipos de exploração, como veremos a seguir.

Na obra freudiana o termo que mais se equipara a abuso seria a palavra trauma, que vem do grego e significa ferida. A teoria psicanalítica desenvolveu o conceito de trauma que influencia na prática clínica até os dias de hoje.

A psicanálise transpôs para o plano psíquico três significações implicadas no termo: a de um choque violento, a de uma refração e a de consequências sobre o conjunto da organização (Laplanche e Pontalis, 1967).

A essência do trauma é a experiência de desamparo. No caso do abuso, o desamparo se apresenta na forma do silêncio a que a criança abusada é obrigada pelo abusador e, frequentemente, pelo silêncio da família também. A culpabilização recai, ainda que de forma implícita, sobre a criança. Ferenczi (1933) também considerava que a culpa sentida pelo adulto infrator por sua postura é transmitida à criança através da identificação.

Entre 1920 e 1939, Freud dá continuidade a seu artigo Além do princípio do prazer, no qual dá prosseguimento ao desenvolvimento da teoria pulsional, relacionando a com a pulsão de morte e a compulsão à repetição, considerando esse movimento como um funcionamento psíquico. A pulsão de morte se opõe a pulsão de vida visando inconscientemente o inorgânico, a autodestruição. A compulsão à repetição surge como um sintoma, definido como uma maneira de reproduzir o fato traumático de forma distorcida. É necessário nos interrogarmos se a prostituição poderia ter como uma das causas o trauma de abuso infantil. Nesse caso, o sujeito submetido ao trauma do abuso sexual infantil, acometido da pulsão de morte teria como sintoma a compulsão à repetição na forma da prostituição.

O sintoma é uma expressão disforme da dor do sujeito, através dele o sujeito pede para ser ouvido. Kaufmann coloca que “o sintoma como palavra a dizer pede para ser ouvido e a repetição é o signo da insistência desse pedido (1996, p 451)”.

É possível observar na clínica que a infância das meninas abusadas que acabam na prostituição, na grande maioria dos casos, é marcada por violência dentro da família, falta de condições materiais básicas, dominação do adulto sobre a criança, figura masculina predominante sobre a feminina e machismo.

Nesses casos, a falta de apoio da família colabora com a impossibilidade da organização psíquica e impede que a criança elabore a violência sofrida. O psiquismo não descarrega o excesso de catexia causado pelo trauma. Há a necessidade de um trabalho analítico bastante potente para que haja a possibilidade de uma elaboração suficiente em casos de abuso sexual na infância.

A criança é abusada duplamente quando não encontra suporte de um adulto na família. A mãe, em muitos casos, não dá crédito à criança que se vê obrigada conviver com uma família na qual não pode confiar e não lhe dá proteção. A criança sofre um trauma pelo qual poderá se sentir culpada e perseguida pelo resto da vida. A proteção do ego é rompida e como efeito há uma angústia difusa e constante que perdura durante toda a vida adulta.

A criança abusada pode ser facilmente levada à prostituição, pois, seu psiquismo atrela seu valor como sujeito unicamente ao ato sexual. Esse sujeito tem sua integridade psíquica lesada, a formação da personalidade é incompleta e possui uma autoestima rebaixada. Todos esses fatores levam à suscetibilidade para qualquer tipo de exploração. A experiência de cumplicidade e obediência ao abusador é outro elemento que a torna vulnerável à prostituição. Na maioria dos casos, na vida adulta, a mulher não consegue identificar que está sendo abusada.

Os possíveis reflexos dessa trajetória são o desenvolvimento de psicopatologias, narcodependência, gestação precoce e indesejada, abortos, doenças sexualmente transmissíveis e dependência econômica dos parceiros sexuais. A sociedade ainda a responsabiliza, através do discurso da opção pela prostituição por puro prazer, facilidades e a discrimina. Com essa trajetória de abusos constantes, cria-se um perfil que não tem potencial para lidar com estresse pois seu amadurecimento psíquico é comprometido. Sua autoimagem tende a ser defeituosa e é reforçada negativamente pelas atitudes dos outros com relação às suas capacidades. É muito comum que o sujeito acabe se sentindo impossibilitado de romper com esse lugar que ocupa na vida, pois tal lugar lhe foi imposto psíquica e socialmente.

A saúde mental na prostituição é uma questão que vai desde o universo familiar até a saúde pública, necessitando urgentemente de uma ampla estrutura de apoio para elaboração de uma difícil trajetória de abusos.


Referências

FREUD, S: Além do princípio de prazer (1920). In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago. vol. 18. 2006.

KAUFMANN, P: Dicionário enciclopédico de psicanálise. O legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996.

LAPLANCHE, J: PONTALIS, J.-B. (1967/1970). Vocabulário de psicanálise. Lisboa: Moraes.

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