Usos neuróticos da pandemia: dilemas éticos atuais

César Assis

Antropólogo e Psicanalista


Devido à pandemia da covid-19, todos estamos afetados em nosso direito de ir e vir e temos que lidar com o dever de fazer o distanciamento social. A maneira como enfrentamos o fechamento das atividades econômicas imposto pelo Estado, a restrição de sair de casa, o isolamento recomendado ou obrigatório, e mais recentemente, todos os movimentos de idas e vindas desses processos de fechamento e reabertura têm colocado questões profundas de ordem ética e moral a todos.

As demandas atuais fazem com que todos tenhamos que nos haver com dilemas, escolhas, responsabilizações e riscos que estão no universo da relação entre a moral e a ética. A distinção entre esses aspectos da ação, questão filosófica clássica de longa duração, herdada pela psicanálise, tem ganhado certa premência no setting analítico, tornando-se um tema que precisa ser refletido.


O que faz um sujeito consentir ao “fique em casa”? Ele toma essa posição devido a um livre consentimento esclarecido, consciente, para o seu bem e o de todos? Ou se submete a isso devido a uma moral externa? Diante da qual acredita não ter escolha e, portanto, ninguém deveria ter, pois é o certo a ser feito, e quem descumprir deveria ser punido. Ou ainda, é o medo o fator decisivo que o faz consentir ao isolamento social? Qual seria a natureza desse medo? É de adoecer, de morrer, ou de fazer o outro adoecer e causar a sua morte? Ou seria o medo do julgamento dos outros? Ou de ter uma imagem social borrada? Ou ainda, apenas age assim em obediência aos mandamentos do Estado? Ou ao contrário, não se submete pois nega o risco? Age irresponsavelmente assim pelo seu próprio perfil? Ou mimetiza autoridades negacionistas? Tal sujeito se responsabiliza integralmente pelas consequências do seu ato, para o bem e para o mal? Como podemos deduzir a partir dessas questões, as razões que motivam os diferentes modos de lidar com o isolamento social são de ordem múltipla.

A psicanálise diante dessa questão filosófica – a relação entre moral e ética – historicamente, se colocou como um bastião do agir ético, isto é, sua impulsionadora, seja em um plano individual ou coletivo. Por vocação, a psicanálise afirma-se não moralista, não tradicional, produtora de sujeitos não subservientes a tudo o que a relação com o grande Outro pode representar (dependência, submissão, salvação, mandamentos, tirania, mimetização inconsciente). O setting da psicanálise é um local simbólico de criação de brechas e alternativas frente a uma moral tradicional, opressora, conservadora, coercitiva, que ganha os contornos internos do supereu do sujeito, o censor de que fala Freud ([1930]2010), uma instância psíquica julgadora e insatisfeita que somente conhece o tempo verbal do imperativo. Assim, a moral – em suas correlações com o grande Outro e o supereu – certamente é um elemento importante num tratamento psicanalítico. Ela entra para ser problematizada e questionada. Frente a ela o sujeito é convidado a se posicionar e responder conscientemente.

Criar esse enfrentamento do sujeito com a moral não é sem intenção, em verdade, é o modo como a psicanálise constrói um posicionamento ético de cada pessoa. Visa-se sobretudo fomentar no sujeito um agir consciente, responsável, no qual ele esteja implicado, que não seja mera mimetização ou submissão aos desejos de um grande Outro. Além disso, o setting introduz a noção de escolha diante de possibilidades dadas na vida do sujeito. Ou até mesmo, quando necessário, o tratamento também leva à criação de novas possibilidades. Isso porque, muitas vezes, o sujeito não sabe que em suas ações há uma dimensão de escolha e que há outras possibilidades de ação.

De um ponto de vista ético, não há um agir certo ou errado definido objetiva e externamente. Existem ações que produzem bons ou maus encontros (Fuganti s/d), experiências melhores ou piores, com consequências mais ou menos desejadas. A ação envolve riscos, custos, responsabilização, ausência de garantias e indeterminação de consequências.

Assim, o agir motivado pela ética é bem diferente de um agir encerrado no quadro da moral. Nesse último caso, ele é uma mimetização inconsciente, “o fazer e continuar fazendo as coisas de um modo que devem ser feitas”. Ou então, é a submissão sem questionamento a um grande Outro, que pode estar personificado nas figuras parentais, na família, na sociedade, na tradição, no Estado. Tanto quanto no agir ético, há uma intenção na ação moral em estar correto, mas, neste último caso, a definição do que seria isso está dado externamente. A impressão que o sujeito tem é que esse agir não é uma escolha, mas um mandamento. Não raro, o que determina essa ação é um medo da punição, ou de ser diferente da manada. Consciente ou inconsciente, deseja-se alguma forma de recompensa e garantia na ação moral.


Clínica psicanalítica e a pandemia

Todos fomos tomados de assalto pela pandemia. Desde então, cada sujeito tem lidado a seu modo com ela. Há uma singularidade na maneira de elaborar perdas, mudanças, riscos de contaminação, adoecimento e morte, assim como, é particular a escolha do proceder com relação ao isolamento e as novas ondas de fechamento e reabertura das atividades econômicas.

A resposta a esse quadro é sempre individual. Ser ou não de grupo de risco, morar ou não com pessoas desse grupo, são dados que geralmente são considerados nessa equação de medos e cuidados. Além disso, há as peculiaridades da vida profissional, financeira, doméstica e familiar de cada sujeito. Algumas pessoas perderam mais do que outras, ou ainda, mais ou menos angústia foi acionada diante desse cenário. Até mesmo a percepção do nível de afetação emocional à pandemia é particular. As condições dramáticas impostas fizeram com que muitas vezes alguns sujeitos se questionassem e redefinissem o sentido de suas vidas.

Desse modo, o setting também passou a ser o lugar de elaboração e de produção de sentindo diante dessas questões tão difíceis. Mais do que isso, tornou-se também o local de análise de risco e de possibilidades de escolhas, alternativas, criação de uma nova forma de existência, diante desse mundo exterior incerto, perigoso e com poder coercitivo de proibição ou limitação do direito de ir e vir.

Assim, no quadro da pandemia, o setting, como não poderia deixar de ser, continuou sendo esse continente no qual se visa produzir a implicação do sujeito na produção do seu modo singular de lidar com o real, com as suas escolhas possíveis, responsabilização e sustentação dos riscos a assumir. Ou seja, a produção de um posicionamento ético diante da pandemia. Nunca é demais afirmar, que tal ambiente somente se constitui pela neutralidade, abstinência e imparcialidade do psicanalista.


Uso sintomático do isolamento social

Na clínica, o que mais me chamou a atenção no último ano não foram os casos de negação da pandemia ou da ciência, minimização dos riscos, ou atitudes irresponsáveis de falta de isolamento social. Tornou-se mais intrigante compreender como alguns pacientes se apegaram sintomaticamente ao isolamento social. Tais pessoas, por meio de um discurso sanitário, afinado com o que é socialmente correto, passaram a usar o isolamento e o distanciamento social como defesas contra outras experiências possíveis, atualizando os seus sintomas anteriores.

Identifico esse uso neurótico e sintomático da pandemia em três atitudes/posturas, as quais exemplifico com três frases: i) o exterior é grande demais e determina a minha vida psíquica; ii) enfim, tenho uma razão legítima para não viver; iii) sou feliz por estar correto, embora me sinta mal. Consideremos essas três posturas.

i)O exterior é grande demais e determina a minha vida psíquica:

Alguns sujeitos acreditam que o seu estado psíquico, ou o seu humor, ou sua vida, é determinado e depende direta e exclusivamente do exterior mais amplo (a sociedade, a economia, o Estado, a política, o meio ambiente, o mercado, o sistema). Evidente que há uma relação entre essas instâncias e a vida do indivíduo, e que, em certas circunstâncias, tais entidades são absolutamente determinantes. Contudo, chama a atenção a crença de alguns sujeitos de que, frente a essas grandes entidades, eles nada podem fazer, e mais do que isso, sentem-se invadidos e definidos por elas. Ou seja, tais sujeitos expressam uma vida interior passiva, somente receptiva. Pessoas que se relacionam dessa maneira com o exterior tenderam a considerar o ano de 2020 como perdido de antemão, já que a sensação de não poder fazer nada frente ao mundo aumentou em larga medida.

Em verdade, o Brasil tem passado por uma grande turbulência social e política nos últimos anos. Vários foram os eventos dramáticos da vida coletiva: as manifestações de junho de 2013 críticas às diferentes instâncias de Governo; a eleição polarizada de 2014; o impeachment da presidenta em 2016; a eleição também polarizada e bastante agressiva de 2018 (com consequências emocionais graves para relações com familiares e amigos, ferida ainda não cicatrizada para muitos) e os dois primeiros anos do governo Bolsonaro, culminando com a postura negacionista deste diante de a pandemia, a ciência e a vacina. De modo geral, muitos brasileiros se sentem nocauteados por tais acontecimentos, com uma grande sensação de impotência e desolação.

Por mais legítima que seja a emoção e a sensação de dor, frustração, desapontamento e desânimo, tal postura em si, quando valorizada sintomaticamente, tende a ganhar um caráter defensivo e limitador de uma vida criativa, na medida em que o exterior tudo decide e diante do qual nada pode ser feito. Ao mesmo tempo em que a responsabilidade da própria vida está entregue às entidades exteriores mais amplas. Não raro, espera-se que a salvação venha também desse exterior, de modo que aguardam em suas vidas pessoais e profissionais, de maneira desimplicada, uma nova maré positiva.

Nesse caso, quando o exterior é grande demais e determina a vida psíquica do sujeito, parece faltar à pessoa com essa postura uma brecha, uma dimensão para mediar o exterior e sua vida interior. O tratamento precisa ser a produção de um espaço simbólico interior para realizar essa mediação, com intenção de produzir uma instância garantidora de uma postura menos reativa, visando aumentar a capacidade de ação responsável e criativa no mundo.


II) Enfim, tenho uma razão legítima para não viver:

A segunda postura é bem próxima da primeira. Em algum grau, tais sujeitos partilham esse peso maior que é dado ao exterior como determinante da vida individual. Contudo, enquanto na primeira postura a emoção de derrota é a definidora da impossibilidade de agir, nessa outra, os argumentos sanitários são usados como as razões de certa inação.

É o caso de pessoas que já estavam num certo limbo em suas vidas, com dificuldade de sair de alguma posição de dependência, repetição, inércia ou estagnação, e conseguiram durante a pandemia uma justificativa sólida e plausível para não viver, não agir, não ver o(a) parceiro(a) amoroso(a), não encarar o sexo, poder depender de familiares, não procurar ou mudar de emprego, não empreender, não se arriscar, não se exercitar, fazendo assim um uso sintomático do isolamento social. Nesse cenário, tal sujeito sequer sente culpa, pois afirma para si mesmo que nada pode fazer, e condena, utilizando argumentos sanitários, quem está se adaptando e fazendo algo criativo.

Não se trata de minimizar as dificuldade e impossibilidades que foram postas pela pandemia. Mas digno de nota é o uso racionalizador e defensivo da pandemia para isentar o sujeito de sua responsabilidade sobre certas áreas de sua vida, inibindo sua ação. Contra tal postura, abundam exemplos, inclusive clínicos, do quanto a pandemia foi, paradoxalmente, um momento muito produtivo para transformar a vida, a retomada ou a criação de hobbies, novos empreendimentos, mudança de emprego, invenção de novos modos de trabalho, lançamento de novos produtos, retomada de relações, tempo de cuidar melhor da saúde, busca de uma dieta mais saudável, retorno à atividade física, etc. Ou seja, apesar de todas as mazelas da pandemia, e sabemos que não são poucas, alguns sujeitos demonstram uma ação surpreendentemente criativa e potente nesse período.


III)Sou feliz por estar correto, embora me sinta mal

Por fim, na postura “sou feliz por estar correto, embora me sinta mal”, os sujeitos seguem com bastante rigor o isolamento social. São obsessivos no cuidado com a higiene das mãos, pés, roupas, calçados, objetos comprados, uso de máscaras e álcool em gel e o distanciamento social. Geralmente, não saem de casa para nada, sequer para fazer compras, tomar sol, respirar um ar puro ou exercitar-se. Tais sujeitos têm o mérito real de não serem propagadores do vírus.

Contudo, chama a atenção como alguns entre tais sujeitos vivem o isolamento com bastante peso e mal-estar. Sentem angústia constante, aperto no peito, palpitação, falta de ar, insônia, tremores e calores. Muitas vezes, sentem os sintomas da doença que temem, por exemplo, dificuldade para respirar.

O que é digno de destaque é o fato de tal sujeito se relacionar com o isolamento social na chave da sujeição moral. Em seu íntimo, a pessoa não se pensa fazendo escolhas conscientes e desenhando a sua política ética de isolamento e autocuidado. De outro modo, sua atitude de cuidado frente à pandemia é vivida como um mandamento, uma ordem, perante a qual não se tem escolha. O que dá notícia de um eu encolhido, diante do supereu ditador. A possibilidade de flexibilizar ou relaxar suas formas de cuidado e controle, em nome de seu bem-estar físico e mental, logo é duramente repreendida, rechaçada e desestimulada. De modo que tal sujeito está sempre em um equilíbrio entre o mal-estar advindo do isolamento e a satisfação narcísica em seguir estritamente o cuidado devido, isto é, a recomendação sanitária expressa.

Assim, o que motiva o respeito ao isolamento social estrito ultrapassa as razões sanitárias, pois em verdade trata-se de motivações morais. Torna-se um valor estar correto frente aos outros que estão errados e são irresponsáveis. Esse mesmo supereu que controla as ações do sujeito muitas vezes é projetado para outras pessoas. Ele passar a julgar todos que não se submetem tão rigorosamente ao isolamento, pessoas que saem para caminhar e tomar sol na rua, por exemplo, ou ir ao mercado, ainda que com os devidos cuidados (máscara e álcool em gel).

Apesar de o sujeito de tal postura sentir um grande mal-estar, devido ao seu rigoroso isolamento, não parece estar computado em sua equação de risco algum elemento produtor de bem-estar para suportar sua escolha. Verdadeiramente, a sua ação não está norteada pela saúde. Muitas vezes sequer é o risco ou o medo da contaminação que orienta esse sujeito. O elemento fundamental geralmente é a vaidade moral advinda de estar correto, ser aquele que age como todos deveriam agir. Além disso, é importante que elas sejam vistas como tal. Por isso os seus cuidados diante da pandemia não são vividos como uma escolha ética, mas estão na chave da servidão moral. A satisfação narcísica nesse caso vem junto com a vaidade moral.

Já que nessa postura o eu do sujeito está muito diminuído, mesmo quando ele flexibiliza o seu isolamento social, ele não o faz como uma escolha consciente e responsável. Geralmente, ele se vale das razões, escolhas e ações de terceiros. Como exemplo, uma visita inesperada, a entrega inadiável de um objeto, um convite, o qual não pode recusar para não frustrar o outro, razões do trabalho. Tal sujeito quer acreditar que sua ação não foi uma escolha sua, de modo a diminuir o seu sentimento de culpa. Como toda ação envolve risco, indeterminação de consequências e não possui garantias, tal sujeito faz da alienação de sua responsabilidade o seu conforto moral.


Conclusão

Vivemos certamente o momento mais difícil, tenso e letal de nossa geração. Já ultrapassamos somente no Brasil a marca de 373 mil mortes por covid-19 (até 18/04/2021). Estamos diante de um desafio, do ponto de vista da saúde pública, da economia e do funcionamento das instituições democráticas. O descaso de governantes e a negação da ciência e da pandemia tornaram esse cenário ainda mais tenso e complicado. Precisamos, mais do que nunca, de estratégias diante desse quadro, tendo em vista que ele demanda sujeitos fortes, conscientes, responsáveis, criativos, potentes e adaptados.

O setting analítico é esse espaço-tempo necessário que pode auxiliar na construção simbólica deste posicionamento, considerando sempre o princípio da realidade, como é caro à psicanálise. A meu ver, o isolamento social é um dever imprescindível, mas somente ele não basta. Ainda mais quando este é valorizado sintomaticamente de forma defensiva ou vivido na chave da sujeição moral. Em verdade, hoje não precisamos de mais obediência moral, mas de responsabilidade civil traduzida em uma postura ativa de cuidado consigo e com o outro, seja do ponto de vista sanitário ou econômico. Precisamos de ação adaptada, criativa e potente para lidar com esse novo mundo imprevisto e complexo.


Referência bibliográfica


FUGANTI, Luiz. Ética como potência, moral como servidão. Disponível em: https://tonarede.org.br/wp-content/uploads/2017/08/A-%C3%89tica-como-pot%C3%AAncia-e-a-Moral-como-servid%C3%A3o.pdf Acesso em 15/04/2021.


FREUD, Sigmund. O mal estar na civilização (1930). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 18: O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). Tradução Paulo César de Souza. São Paulo, Companhia das Letras, 2010. Pg. 14-122.


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